f Adeus, verde.: Maio 2014

26 de mai de 2014

Paixão x Liberdade

Adoro estar apaixonado e entregue, envolvido por alguém, e com a cabeça ocupada por esse sentimento. Mas gosto ainda mais de estar sozinho, envolvido pelos acontecimentos da minha vida e com a cabeça e o coração "vazios". Eu tenho que confessar que amo as ligações de boa noite, as mensagens de bom dia, e aquela preocupação que ocupa o dia de quem ama. Só que me sinto absolutamente bem em não ter nada disso, ou de ter tudo isso, mas com outra ou outras pessoas, que não um amor.

Consigo ser feliz em um jantar a dois, ou de baixo das cobertas assistindo um filme de "conchinha", como consigo dançar até amanhecer em uma festa com amigos.

Sou o cara dedicado e atencioso, o que vai deixar um bilhete apaixonado antes de sair atrasado para o trabalho. Surpreender com alguma ação carinhosa que ninguém nunca pensou em fazer. Mas sei ser o cara que não vai ligar no outro dia, e que não vai fazer esforço nenhum pra fazer alguém tirar os pés do chão.




Posso sim me perder em uma paixão, ficar nesse barco remando, remando, para fazer com que prossiga e não afunde. E também posso simplesmente largar os remos, abandonar o barco no meio da madrugada sem ninguém perceber.


A paixão me fascina, desperta em mim o que eu tenho de melhor. A liberdade me deixa em êxtase, traz tudo que eu busco.


Eu quero casar, em uma tarde linda, rodeado de todos que amo e que acompanharam a minha história de amor.
Mas também quero fazer as malas e percorrer esse mundo sozinho, somente na minha companhia. 
Quero a rotina do dia a dia de um casal, que se ama e divide seus momentos, medos e alegrias.
Quero a não rotina de quem é sozinho, e pode entrar e sair quando quiser, sem explicações, quero simplesmente bater a porta quando eu achar melhor.


Eu sou um ótimo namorado. E consigo ser um solteiro melhor ainda.

Não faço ideia qual vai ser meu destino, se vou ter um álbum de casamento, ou de fotos dos meus mochilões, se no meu quarto vai ter duas luzes de cabeceira, ou apenas uma. Se vou dividir guarda-roupa ou não, na verdade, nem sei se quero um guarda-roupa.


Eu só sei de uma coisa... Que posso ser extremamente feliz dos dois jeitos!

14 de mai de 2014

O apartamento acima

Apartamento 301 - Terça-feira (2h57min da madrugada)

Verônica

Madrugada. O cinzeiro já estava cheio de cigarros apagados, exceto por um que continuava aceso, mantendo a sala em uma penumbra. Em uma das mãos de Verônica uma taça de vinho, a quinta que ela tomava em menos de meia hora. Essa noite ela optou por não jantar, na verdade sequer almoçou, comida era tudo que Verônica não havia pensado hoje. Em sua outra mão estava o celular, onde a cada dois minutos colocava a sua senha de desbloqueio e conferia seu WhatsApp, verificando sempre o último horário que seu contato chamado "Amor" havia visualizado suas diversas e extensas mensagens.
A dor que aquele silêncio causava, conseguia ser maior que a dor que a última discussão havia deixado. Fim de relacionamento, cobranças, perguntas sem respostas, desconfiança, vontade de ficar, vontade de ir embora, querer que aquilo dê certo, mas, rezar para acabar. Ruim com ele, pior sem ele.
Tudo naquele apartamento estava pesado, a madrugada iria ser longa, mais carteiras de cigarro seriam abertas, e outras garrafas de vinho terminariam.

Apartamento 304 - Terça-feira (3h15min da madrugada)

Daniel

Apesar da noite estar super fria, a janela do quarto de Daniel estava escancarada, o quarto estava quente. Na cama, ele e sua namorada descansavam, depois de terem feito sexo. Os dois pegavam fogo quando estavam juntos, quando simplesmente se tocavam, se olhavam. Era uma mistura de amor, paixão e tesão que vinha dando certo a exatamente um ano. Eles estavam comemorando a data, e sentiam uma felicidade que parecia que nunca iria acabar, o tipo de momento feliz que poderia ser eternizado ou "congelado".

Apartamento 402 - Terça-feira (4h10min da madrugada)

Lúcia

Lúcia segurava a cabeça de seu filho enquanto ele vomitava muito, enquanto ele chorava dizendo que não aguentava mais aquele enjoo, aquele mal estar, era o segundo ciclo de quimioterapia dele, e as reações pioravam a cada dia. Ela colocou seu filho de volta na cama, e enquanto ficava ali ao seu lado, Lúcia rezava mentalmente. Implorava para Deus fazer tudo aquilo passar, implorava para que seu filho voltasse a ter a vida que sempre teve, saudável e feliz. Lúcia iria ficar acordada até o amanhecer, tomar um banho, deixar seu filho no hospital e ir trabalhar. Como? Nem ela sabia.



Apartamento 203 - Terça-feira (4h11min da madrugada)


Gustavo

Em frente a porta, Gustavo tentava encaixar a chave na fechadura, mas, seu corpo não deixava, ia pra trás e logo em seguida caia pra frente, tudo resultado das cinco tequilas e as incontáveis cervejas que ele passou as últimas horas bebendo. Gustavo gostava de comemorar, não importava ser uma terça-feira, ou ter que levantar dentro de três horas, pra ele todo dia, era dia. Ressacado, virado, nem isso tirava o sorriso do garoto.



Edifício - Terça-feira (8h00min da manhã)


Amanheceu. Amanheceu para cada um deles. A madrugada chegou ao fim. Todos levantaram de suas camas, tomaram seus banhos, vestiram alguma roupa e saíram pra rua, foram trabalhar, para seus compromissos e suas vidas.
Quem via Verônica caminhando pelo bairro não imaginava a noite de cão que ela havia tido, ninguém diria que ela estava sofrendo, e muito menos que sua cabeça não parava de latejar. As pessoas que repararam em Lúcia subindo no seu ônibus, nem desconfiaram da barra que ela vivia dentro de sua casa, quem ouvia ela agradecer o motorista não poderia acreditar que seu filho estava lutando com a morte. O sorriso na boca de Daniel e de Gustavo poderiam significar mil coisas, mas os verdadeiros motivos só eles sabiam.




Moral de tudo isso: Não Julgue, você nunca sabe o que se passa na casa ao lado, no apartamento acima. Acredite que tudo vai passar, tanto a angustia de Lúcia, o sofrimento de Verônica, e até mesmo a felicidade de Daniel e Gustavo. Tudo passa. Respire, e espere. Sempre amanhece, e a vida não para, até realmente parar.

5 de mai de 2014

Senta aqui, quero te ouvir


Senta aqui e me conta a tua história. Sim, eu quero saber, e com todos os detalhes. Tenho gostado cada vez mais de ouvir, de prestar atenção enquanto tu fala, enquanto tu remexe em teus pensamentos, nas tuas lembranças, enquanto te vejo buscando as melhores palavras para descrever uma situação, um momento da tua vida. A tua vida me interessa, tem me interessado cada vez mais, estou gostando de entrar no teu mundo, mais do que isso, estou gostando de entrar em um outro mundo, que não o meu. Está sendo bom trocar vivências, trocar conhecimento e um pouco de experiência. Tenho um monte de coisas pra contar, e se tu deixar eu falar eu vou até amanhã de manhã, então primeiro quero apenas te ouvir. É sério, pode falar.


Sei lá, me conta tudo. Quero saber da tua infância, do nome da tua mãe, do teu pai, se tu tem muitos irmãos ou é aquele filho único mimado, pode me dizer se tu apanhava muito, ou se nunca levou nem um "tapinha". Gosto de te ver com essa cara, de quem se diverte enquanto lembra a vez que fugiu de casa, ou que ficou até tarde brincando na rua, e depois "enforcou" o banho, sentando no vaso com o chuveiro ligado, só pra tua mãe acreditar que tu ia dormir limpinho. Adoro essa risada que tu dá no final das tuas histórias, e fico torcendo sempre pra ser alguma coisa muito engraçada, só pra ver tu colocar a cabeça pra trás enquanto solta a tua risada pausada. Eu to realmente gostando de te ouvir. Vai, estou curioso, me diz o que tu gosta de comer, qual teu signo, o que tu prefere fazer em um domingo, se tu acorda de mal humor, ou se é daqueles que já acorda colocando música, quais são os teus sonhos e objetivos, se tem medo de muita coisa, ou se nem sabe o que significa ter medo. 

Tuas narrativas me fazem bem.
Despertam algo bom, gosto de entender o caminho de uma outra pessoa, fico encantado quando percebo que temos opiniões tão diferentes sobre uma mesma coisa, gosto de defender a minha visão, a maneira e o porque vejo dessa forma, mas, gosto mais ainda quando tu defende a tua, volta e meia se levantando e sentando por cima das pernas no sofá, sem deixar de falar, sem silenciar nem por um segundo. Entendo porque tu pensa da forma que pensa, pois até agora tu dividiu comigo muitas passagens da tua vida, não só me contou sobre os momentos felizes e inocentes da tua infância, mas também sobre tuas perdas, sobre aqueles momentos que tu achou que estava tudo perdido e muito difícil pra continuar. Eu consigo entender o motivo de tu ser assim hoje, teus caminhos justificam tuas atitudes, tu é quem é por tudo que viveu, por isso estou aqui mergulhando nos teus contos, nas tuas lembranças.



Pode tomar um copo d'água, a tua boca deve tá seca. E por favor, Senta aqui de novo, quero falar sobre mim, te importa da gente ir até amanha de manhã?